Indignemo-nos também contra o racismo!
“Não viajaria em avião pilotado por cotistas, nem aceitaria ser operado por médico [ex-cotista]” (Jair Bolsonaro, Deputado Federal, no programa CQC, em resposta a uma pergunta sobre sua opinião em relação às cotas para negros nas universidades). Grifo nosso.
“Não vou discutir promiscuidade. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem-educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu” (Jair Bolsonaro, em resposta à cantora Preta Gil quando esta perguntou sobre a eventualidade de um filho dele ter envolvimento amoroso com uma mulher negra, http://www.youtube.com/watch?v=UrLpLXe-q08). Grifo nosso.
“Tem um cara que eu sou muito fã desde criancinha e acho que foi ele que me fez ser artista…Era um cara que, na sua época, negro, caolho, um metro e cinqüenta, chamado Sammy Davis Jr., que quando entrava no palco saía com dois metros de altura, loiro, de olho azul”. (Rodrigo Lombardi, ator, no Programa Domingão do Faustão em 04/09/11, http://www.youtube.com/watch?v=tg7MHZLYzWA). Grifo nosso.
“Finalmente Orlando Silva caiu do galho” (Arnaldo Jabor, jornalista, em sua coluna na Rádio CBN no dia 27/10/11, http://migre.me/62jlI). Grifo nosso.
As falas transcritas acima exemplificam como racismo no Brasil é vivo e, por isso, continua sendo uma questão que deve ser debatida pela sociedade e por suas instituições, e combatida se de fato quisermos viver em uma democracia. O que vemos nos exemplos acima não são apenas falas de pessoas preconceituosas, são atitudes, comportamentos e posicionamentos sócio-culturais e institucionais que, não raro, transformam-se em discriminações e determinam constrangimentos, oportunidades e lugares sociais.
Lembro-me neste momento de uma amiga que é casada com um ator negro e um dia desses me falou do desânimo do seu marido diante da falta de oportunidades e da dificuldade de conseguir trabalho na TV. Segundo ela, na avaliação do casal, ele não é chamado para atuar por ser um negro bonito, ou seja, para eles “negros são chamados para interpretar personagens pobres e pobres não são bonitos”. Não é difícil sentir-se assim sendo negro numa sociedade que imagina o talento com “dois metros de altura, loiro, de olho azul”, que freqüentemente relaciona negros com animais, tal como fez Arnaldo Jabor, ou em que negros morrem mais por violência do que brancos, como mostram as estatísticas.
Lembro-me também da atitude do jornal O Globo quando a campanha nacional em defesa das políticas de ação afirmativa para negros no Brasil, especificamente as cotas nas universidades, intitulada “Afirme-se” (http://afirmese.blogspot.com ), produziu uma peça publicitária para veiculação em jornais de circulação nacional. A direção do jornal, depois de ter acesso ao conteúdo da peça, e após ter apresentado para a Agência Publicitária que produziu o conteúdo da campanha o valor de R$ 54.163,20 para a publicação, decidiu que somente publicaria pelo valor de R$ 712.608,00 (valor mais de 1000% maior que o valor negociado com a Agência Publicitária), sob a alegação que se tratava de uma “expressão de opinião”, numa violação ao princípio de liberdade de expressão, que o próprio jornal diz defender.
A Caixa Econômica Federal também vacilou ao veicular na Televisão, em setembro, uma peça publicitária comemorativa dos seus 150 anos, cujo personagem, Machado de Assis, era interpretado por um ator branco (http://www.youtube.com/watch?v=10P8fZ5I1Wk). Aqui cabe uma observação: Todos nós, inclusive os publicitários, sabemos que Machado de Assis era afro-brasileiro, mas as nossas elites e autores de livros didáticos nunca se conformaram com o fato de que o fundador da Academia Brasileira de Letras seja um negro. Porém após diversas manifestações na internet e de um pedido de explicações encaminhado pela Ouvidoria da Secretaria de Políticas Promoção da Igualdade Racial – SEPPIR ( órgão do Governo da União), enviou como resposta uma carta com pedido de desculpas (http://migre.me/62gVR e http://migre.me/62hI5) , retirou a propaganda do ar e a substituiu por outra peça publicitária, agora com Machado de Assis interpretado por um ator negro (http://www.youtube.com/watch?v=GczgFMEM6Sg).
O racismo se alimenta e se reproduz em atitudes como as exemplificadas acima, e isso é um elemento de produção de discriminações e desigualdades. Não é por acaso que 70% dos miseráveis no Brasil são negros, que mais de 24% dos negros que morrem são por causas violentas, principalmente resultantes de armas de fogo. E não é por acaso que existe um movimento negro historicamente atuante na luta contra o racismo e as desigualdades raciais.
É o movimento negro com suas ações o responsável pelos pequenos avanços que tivemos nas últimas décadas, como a legislação que criminaliza a discriminação racial (Lei Federal 7.716/1989 – Lei Caó), que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira (Artigo 26A da Lei Federal 9.394/1996 – Lei de Diretrizes e as Bases da Educação Nacional ), que propõe ações afirmativas em diversos campos da vida social (Lei Federal 12.288/2010 – o Estatuto da Igualdade Racial), e como as políticas de cotas para negros que existem em diversas instituições de ensino superior e concursos públicos estaduais e municipais.
Entretanto há muito que fazer ainda para atingirmos um nível em que, pelo menos, falas racistas como as que transcrevemos no início deste texto causem indignação para além do âmbito do ativismo negro e anti-racista. Sobretudo no que diz respeito ao Artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação e ao Estatuto da Igualdade Racial, é fundamental intensificar as ações para sua efetivação, pois a educação é o principal instrumento de mudança das relações raciais. É preciso indignar-se contra o racismo e as discriminações, o que significa também ocupar escolas, universidades, teatros, telas de cinema e de televisão, orçamentos públicos, mídias e instituições em geral com debates sobre a questão, ações afirmativas e conteúdos que valorizem as culturas afro-brasileiras, as múltiplas singularidades, a democracia e, pois, o Comum.
Novembro/2001




